quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Agreste


Que esta pele
agreste e morena
sempre esteja presente
ao meu toque
Que teu sorriso vasto
jamais se afaste
dos meus olhos
Assim como os bicos
dos teus seios
morros desta terra
por mim jamais habitada
nunca abandone o roçar
da minha língua
Que teu ventre
seja campo de caça
para eu sempre
me nutrir da carne
umedecida pelo suor
da saliva a me
inundar a boca
Que teus sons
jamais se mostrem
ausentes aos meus ouvidos
Que teu corpo
jamais viva em outro
corpo que não o meu.

Wilian Jañez

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Carne


A carne mais barata do mercado é a carne negra?
Não seria a carne pobre?
Seria a carne negra também carne pobre?
Sempre pobre ou quase sempre pobre?
Não seria a carne pobre também carne negra?
Sempre negra ou quase sempre negra?

Sendo assim, posso considerar que 
a carne mais cara do mercado é a carne branca?
Não seria a carne rica?
Seria a carne branca também carne rica?
Sempre rica ou quase sempre rica?
Não seria a carne rica também carne branca?
Sempre branca ou quase sempre branca?

Não seria isso tudo uma grande bobagem?

A carne é sempre é a mesma carne vermelha
o que muda é o pensamento.

Wilian Jañez

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Manhã na cidade

Passa carro, passa rápido sem parar
quando para, é no sinal,
mas acelera quer logo continuar
lá vem o menino, levanta o vidro
para não incomodar
se tem trocado compra bala
para o hálito de cigarro espantar
abril sinal, arranca rápido
para o tempo perdido recuperar
voa ave, fica árvore
corre o vento, para o lago encrespar
passa o carro apresado, sem nada notar
de tanta presa logo cedo, cansado já está
quer logo ir para casa, dormir e descansar
amanhã acordar cedo e tudo recomeçar

Passa carro, passa rápido sem parar...

Wilian Jañez

Curta Saraus

  Desde sempre a periferia possui uma grande carência artística e cultural, como se a arte e a cultura só acontecessem no centro da cidade. De alguns anos pra cá começaram a surgir na periferia de São Paulo espaços dedicados a arte e cultura, como na periferia uma das poucas opções de lazer é o bar, boa parte desses encontros dedicados a arte e a cultura acontecem em bares.

 Hoje esses encontros já são realidade e estão tomando cada vez mais força, a periferia mostra ter descoberto que a arte e cultura não possui endereço, basta que se tenha vontade e da tua vontade ambas despertam e hoje diversos artistas publicam seus trabalhos para o mundo e a periferia mostra que esta viva e tem muito a dizer.

  Um exemplo desses grupos é o Cooperifa, criado pelo poeta Sérgio Vaz e alguns amigos hoje possui muitos frequentadores e vem ganhando cada vez mais força.

  Foi lançado recentemente um curta contando exatamente o que acontece nesses encontros indico a vocês.


Segue o trailer do curta...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Do corpo cansado

Estou cansado!
Hoje estou cansado do dia,
da tarde que tarda a passar
e estou cansado da noite
mesmo antes dela chegar
e sendo assim
não sei quando vou descansar
Pode ser que mais tarde
quando todos calam
eu descanse o peito
em um desabafo
e de peito vazio quem sabe
eu descanse o meu corpo,
mas só por algumas horas
pois sou muito moço
para o descanso exagerado
Talvez de peito vazio
meu corpo não precise descansar
ou quem sabe
um corpo de peito vazio
careça de coisas que lhe complete,
e assim esse meu corpo
se mostre em uma busca
aflita e sem rigor,
basta apenas que seja algo
que preencha um peito vazio
de um corpo cansado
e mais tarde quando o peito
já se encontre repleto
esse meu corpo há de saber
que boa parte dessas coisas
não lhe tem valor
e de peito carregado
e corpo mais cansado
é provável que eu
procure descanso,
mas confesso que eu
não sei como descansar um corpo
de peito tão carregado
de coisas que eu não sei pra quê.

Wilian Jañez

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Da Paz - Marcelino Freire



Eu não sou da paz.
Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma não, senhor. Não solto pomba nenhuma não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça.
Uma desgraça.
Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?
Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não.
Não vou.
A paz é perda de tempo.
E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.
A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente.
Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.
Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou.
Não vou.
Sabe de uma coisa: eles que se lasquem.
É.
Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?
Hein?
Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, muito menos ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Uma dor.
Dor. Dor. Dor.
Dor.
A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. Mas a paz é que é culpada. Sabe?
A paz é que não deixa.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Céu de Gustavo

  Gustavo olhava para o céu, ele parou tudo que estávamos fazendo e olhava para o céu, ele não se importava mais com as pessoas, com os bichos do galinheiro, nem com os porcos e muito menos com os adoráveis coelhos, ele havia abandonado tudo e apenas olhava para o céu, e como se desejasse que ficasse claro o que fazia ele me disse "Estou vendo o céu".

  Gustavo se dizia bravo, porém muito rápido entendi que Gustavo era apenas doçura, lhe propus ser meu amigo e ele aceitou, assim passamos a ser amigos. Gustavo brincava com as demais crianças quando eu perguntei se ele poderia me mostrar os bichos do lar e escola agrícola que ele vivia e prontamente ele abandonou a brincadeira, calçou seus chinelos de menino de 4 anos, me tomou pela mão e começamos a caminhar até os bichos. Gustavo me conduzia em nossa caminhada com muita segurança incomum para a sua idade, a vida já havia lhe ensinado a ser forte.

  Caminhávamos e Gustavo gritava "Vamos ver os porcos! Vamos ver os porcos!" e eu perguntava por que ele era tão bravo e ele como se tivesse sido desmascarado pela minha pergunta, com uma voz doce e encabulada dizia "Más eu não sou bravo" e eu desafiando aquela pequena pessoa perguntava mais, e perguntei por que então ele gritava e com a mesma voz doce e encabulada ele me respondeu que não sabia por que. Era claro que mesmo tão novo ele não sabia o por que de muitas coisas na sua vida, não sabia se era merecedor e muito menos se eram justas as coisas que lhe aconteciam, porém sua vida era da forma que era e ele era doce e encantador dessa maneira.

  Olhava-mos os bichos, Gustavo me mostrou os porcos, depois os coelhos, as galinhas, perus, patos, pintinhos... Então Gustavo parou colocou suas mãos em volta dos olhos para proteger da claridade e olhou para o céu.

  Gustavo olhava para o céu, ele parou tudo que estávamos fazendo e olhava para o céu, ele não se importava mais com as pessoas, com os bichos do galinheiro, nem com os porcos e muito menos com os adoráveis coelhos, ele havia abandonado tudo e apenas olhava para o céu, e como se desejasse que ficasse claro o que fazia ele me disse "Estou vendo o céu" e então eu passei a olhar para o céu e era um céu cinza de dia frio e nublado, era um céu carregado, pesado, triste porém havia muita beleza naquele céu, e eu me sentindo tão pequeno na frente daquele menino não entendia como apenas a uns 40 km da minha casa encontrava um céu tão diferente do que estava acostumado a ver, era um céu bonito.

  Assim conheci Gustavo e fui embora do lar onde ele vive com as outras crianças fascinado e seduzido pelo céu que Gustavo havia me mostrado e agora sinto vontade de mais uma vez olhar para o céu de Gustavo.

Wilian Jañez

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Coisas que sabemos

Quando perguntam
não perguntam das noites em claro,
dos dias perdidos de amor,
das horas escorrendo pela pele,
pois eles não sabem
das coisas que sabemos,
você e eu.

Não sabem da cor, do gosto
e nem mesmo do odor que a pele tem,
não sabem das risadas,
dos gemidos, dos sussurros,
assim como nossos olhos
cerrados também não sabem
das coisas que sabemos,
você e eu.

Não sabem do calor,
dos dentes e nem mesmo dos lábios,
não sabem das línguas
nem do balé que elas fazem,
não sabem das mãos inquietas,
não sabem das unhas na carne
assim como os corpos cansados
já não fazem questão
de saber das coisas que sabemos,
você e eu.

Wilian Jañez