sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Menina Cega

Como pode dizer
ter perdido a beleza
tua beleza é tua
e jamais partirá de ti
Nem o tempo saberá
levar tua beleza
Não fale assim
deste jeito Deus se zanga
Tem os olhos
o pau do nariz
junto com as narinas
os lábios casam com o queijo
e tudo encaixa perfeitamente
sem falar nestes cabelos de índia
Tua beleza é forte
mas não menos doce e meiga
Só falta pendurar um sorriso
e então tua beleza ficaria perfeita
Quando olha o espelho
e diz não encontrar beleza
saiba que não perdeu a beleza
na verdade o que
você perdeu foi a visão.

Wilian Jañez

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lágrima Carioca


Uma gota de chuva
caiu em meu rosto
rolou até minha boca
e dominada pelo meu paladar
notei que não era chuva
era gota salgada
era gota amarga
aquela gota era lágrima
e entendi que a cidade 
não chovia
de tristeza e desespero
a cidade chorava

Wilian Jañez

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Simples assim


Uma noite, um velho índio contou ao seu neto sobre uma batalha que acontece todos os dias dentro das pessoas.
Ele disse: - Meu filho, a batalha é entre dois lobos dentro de todos nós.
Um é mau: é a raiva, a inveja, o ciúme, a tristeza, o desgosto, a arrogância, a pena de si mesmo, a culpa, o ressentimento, a inferioridade, as mentiras, a superioridade.
O outro é bom: é a alegria, a paz, a esperança, a serenidade, a bondade, a benevolência, a empatia, a generosidade, a verdade, a compaixão e a fé.
O neto pensou naquilo por alguns minutos e perguntou ao seu avô: - Qual o lobo que vence? O velho simplesmente respondeu:
- O que tu alimentas.

Marias

Maria é nome bom
é nome de santa
é nome também de mulher
de muitos homens
Tem Maria que é das dores
outras são cheias de graça
Maria já foi o grande
amor de um rei
tem Maria que é filha
da eterna voz
Algumas Marias
preferem ir com as outras,
odeiam andar sozinhas
Existem as aparecidas,
também pudera,
pois como são lindas
essas Marias
e exceto a que é mãe
toda Maria é filha de Deus.

Wilian Jañez

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Gabriela

Não peça que eu te escreva
de você sei apenas o pouco que vejo,
o quase nada que você
se permite me mostrar
E nem sei se o que vejo é real,
se é de fato o que vêem aqueles
que você permite te olhar sem pudor
Mesmo assim,
um pouco atrevido e tímido,
arrisco te escrever
e te escrevo absoluta doçura
como fosse eterna alegria
Dentro do pouco que sei
sei que nem ao fim da vida
terá perdido o sorriso vasto
o semblante de branca paz
Já tendo idade de mulher
tua maior graça é o jeito de menina
Não deixe as voltas que a vida dá
levarem tua beleza imensa
De ti quero carregar sempre
o lindo sorriso que me invade
quase todas as manhãs
jamais quero esquecer
da menina que ri das verdades
que em tom de brincadeira
eu insisto em mentir.

Wilian Jañez

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Tayra e os poetas


Senhor,
já que levastes para perto
de ti
aquela
que amava os poetas
e seus escritos pendurava
em cordéis
pelas praças
pelas ruas
Delega-lhe a função
de pendurar poemas
no
céu,
Senhor.
Outra coisa,
Senhor,
quem colocará no varal:
os nossos sonhos
as nossas iras
as nossas dores
derretidas em versos,
já que levastes
Tayra
e
Wãpurã.*
Senhor
tens a mania
de responder
apenas em silencios
enquanto sangra
os nossos corações

* Wãpura, meu filho de 24 anos que se encantou no dia 25 de setembro de 2010

Cicero Gomes

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Jorginho - Sérgio Vaz



Jorginho ainda não nasceu
esta escondido com medo
no ventre da mãe
quando chegar não vai encontrar pai
que saiu pra trabalhar
e nunca mais voltou pra jantar
no barraco em que vai morar cabem dois
mais é com dez que vai ficar
sem ter o que mastigar
nem leite pra beber
vai ter a barriga inchada
mas sem nada pra cagar
não vai pra escola
não vai ler nem escrever
vai cheirar cola
pedir esmola pra sobreviver
não vai ter sossego
nao vai brincar
não vai ter emprego
vai camelar
menor carente
vai ser infrator
com voto de louvor deliquente
não vai ter páscoa
não vai ter natal
se for esperto se mata
com o cordão umbilical.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

De mãos vazias partimos

Os três últimos desejos de Alexandre, O Grande

Quando à beira da morte, Alexandre convocou os seus generais e relatou seus três últimos desejos:

1. Que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos médicos da época;
2. Que fossem espalhados no caminho até seu túmulo os seus tesouros conquistados (prata, ouro, pedras preciosas...);
3. Que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, à vista de todos.

Um dos seus generais, admirado com esses desejos insólitos, perguntou a Alexandre quais as razões. Alexandre explicou:

1. Quero que os mais iminentes médicos carreguem meu caixão para mostrar que eles não têm poder de cura perante a morte;
2. Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem;
3. Quero que minhas mãos balancem ao vento para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos e de mãos vazias partimos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O tempo dos homens

O tempo dos homens é feito de pedra,
É feito de carne, de sangue, de dor,
O tempo dos homens é feito de tempo
Que é tempo sem tempo, sem luz, sem amor.

Trezentos e sessenta e cinco dias,
Seis horas,
Uns tantos minutos
E segundos,
Leva o mundo
Para girar girando em torno ao sol,
Em sucessão de
Primavera, Verão, Outono, Inverno,
Sol e Sombra,
Noite e Dia.
Eterna imperturbável harmonia.

Os homens não cansam, não param, não dobram,
Comendo, comendo, sem ver, sem olhar,
Os homens não pensam, não falam, não dormem,
No tempo sem tempo do tempo a passar.

Ildásio Tavares