sexta-feira, 29 de julho de 2011

Canto Íntimo

Meu amor, em sonhos erra,
Muito longe, altivo e ufano
Do barulho do oceano
E do gemido da terra!

O Sol está moribundo.
Um grande recolhimento
Preside neste momento
Todas as forças do Mundo.

De lá, dos grandes espaços,
Onde há sonhos inefáveis
Vejo os vermes miseráveis
Que hão de comer os meus braços.

Ah! Se me ouvisses falando!
(E eu sei que ás dores resistes)
Dir-te-ia coisas tão tristes
Que acabarias chorando.

Que mal o amor me tem feito!
Duvidas?! Pois, se duvidas,
Vem cá, olha estas feridas,
Que o amor abriu no meu peito.

Passo longos dias, a esmo.
Não me queixo mais da sorte
Nem tenho medo da Morte
Que eu tenho a Morte em mim mesmo!

"Meu amor, em sonhos, erra,
Muito longe, altivo e ufano
Do barulho do oceano
E do gemido da terra!"

Augusto dos Anjos

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Ode a fé

A ausência da fé
é a fraqueza de todo homem
O homem ausente de fé
perde sua alma
e se mostra capacitado
a exercer o que há de pior em si
Sem fé o homem
se resume a um saco de ossos,
porém ciente da sua fé
esse mesmo homem
se torna capacitado
a alcançar tudo o que quiser,
pois a fé não considera o impossível
A fé não é a arma do homem bom,
pois um homem bom
não vive em guerra
Para o homem bom
a fé é sua essência
e toda vez que o homem bom
cair diante da maldade
ao praticar sua fé
ele mostra aos demais
que apenas um bom
basta para superar todo o mal.

Wilian Jañez

terça-feira, 26 de julho de 2011

Feliz Só Será

Feliz só será
A alma que amar.

'Star alegre
E triste,
Perder-se a pensar,
Desejar
E recear
Suspensa em penar,
Saltar de prazer,
De aflição morrer —
Feliz só será
A alma que amar.

Goethe

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ir, ir e ir

Quero ver onde essa
América se desmorena
E se constrói
Onde se diz negra
Onde se desmestiça
E se desmistifica
Onde se andina
E se desanda
Quero ver
Onde o samba é Gardel
Onde o tango é Noel
Onde a fala é o silêncio dos pampas
A Cordilheira, a Mantiqueira
Onde o ferro é o cobre
Onde Itabira é Temuco
Onde Neruda é Drummond
Onde o guarani é oficial
Onde o Morumbi és La Bombonera
Onde o Chile é Allende
Onde nenhum salvador é Pinochet
Quero ver quero ver
Onde o Paraguai venceu
Onde Afonsina se entregou
Onde o Brasil se argentina mais
Onde o Uruguai é mais Galeano
E onde eu sou mais ou menos brasileiro
Quero ver quero ver

Binho
do livro DONDE MIRAS - Dois Poetas e um Caminho

Nós Somos da Mesma Aldeia

Todo brasileiro é índio
índio já foram milhões
este Brasil mestiço
é a soma de muitas Nações
e cada dia que nasce
nasce uma nova Nação
os meus traços na face
as mesmas linhas na mão
sem bordunas
sem tacapes
só o som dos atabaques
e a roda de se dançar
sem flechas
sem canhões
só o som dos corações
e a vontade de abraçar
sem feitor
sem capataz
só o som dos maracás
e o canto da lua cheia
sem medo
sem violência
só o som da consciência
nós somos da mesma Aldeia.

Eliakin Rufino

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Jandira

O mundo começava nos seios de Jandira.

Depois surgiram outras peças da criação:
Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
O ar inteirinho ficou rodeado de sons
Mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
Captavam objetos animados, inanimados.
Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
Quando Jandira penteava a cabeleira...

Depois o mundo desvendou-se completamente,
Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
Da cabeça aos pés,
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
De sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedeciam aos sinais de Jandira
Crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
E eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
Deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
Por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
E apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
Por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
Não caía nem um fio,
Nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
Tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
A família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
Por causa de Jandira.
E um padre na missa
Esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.

E Jandira se casou
E seu corpo inaugurou uma vida nova.
Apareceram ritmos que estavam de reserva.
Combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.

E o marido de Jandira
Morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
Fez um grande esforço para ressuscitar:
Não se conforma, no quarto escuro onde está,
Que Jandira viva sozinha,
Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
E que ele fique ali à toa.

E as filhas de Jandira
Inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
Espera que os clarins do juízo final
Venham chamar seu corpo,
Mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
Ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.

Murilo Mendes

terça-feira, 12 de julho de 2011

Vivendo com Alzheimer



"Na vida só não há jeito pra a morte,
para todo resto basta saber amar... "

Veja aqui!