segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O tempo

O tempo é o maior tesouro que o homem pode dispor.
Embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento.
Sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza,
não tem começo, não tem fim.
Rico não é o homem que coleciona e se pesa num amontoado de moedas,
nem aquele devasso que estende a mão e braços em terras largas.
Rico só é o homem que aprendeu piedoso e humilde a conviver com o tempo,
aproximando-se dele com ternura, não se rebelando contra o seu curso,
brindando antes com sabedoria para receber os favores e não sua ira.
O equilíbrio da vida está essencialmente nesse bem supremo,
e quem souber com acerto a quantidade de vagar ou de espera que deve pôr nas coisas,
não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é.
Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas.

Raduan Nassar


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Luva de Pelica

Sou um alvo fácil para os meus inimigos
Assino poeta, não só quando escrevo, mas quando vivo
escrevo coisas no papel que na boca viram guizo
olhos fracos e na boca sempre um sorriso.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
moleque do vento de coração atrevido
ando nas ruas como se fossem de vidro
chego no inferno feito anjo sem juízo.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
de manhã acordo num céu sem abrigo
carente de abraços e punhos imprecisos
trilho sem saber odiar, o amor improviso.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
mesmo com uma tristeza que não manda aviso
estou sempre nu vestido com cara de paraíso,
só que a linha do rosto tem cerol com mármore moído.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
tenho asas nas pernas e raíz no umbigo
braços largos e um peito cheio de amor indeciso
faço tudo errado e não sei onde piso.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
não sei para onde vou e pareço preciso
se multiplico não somo, somos, eu diviso
quando sua lama afunda, me chama, eu deslizo.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
invejo a vida não quem vive o vivido
na cara dura passo dias duros e saio liso
porque sou burro, se não quero, empaco, persigo.


Sou um alvo fácil para meus inimigos
hemorrágico sangue bom A negoativo
verborrágico sutil sem os dentes do siso
não engulo sapos apesar do queixo de vidro.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
o novo bate, sou fóssil, mas não me esquivo
dócil tenho medo da chuva não do perigo
se cospem raios, no ócio, tomo suco de granizo.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
quando a traição é posto na mesa, regurgito e mastigo
e ainda que desenterre sua alma para o meu cavar meu jazigo
ando leve feito pluma no chumbo em que vivo.

Sou um alvo fácil para meus inimigos
se não me acertam, na certa te digo:
ando livre e o mundo é meu abrigo
presos a mim, se arrastam, me seguir é quase um castigo.

Sérgio Vaz


Faltou poesia

Menina mata os pais
e homem morre em briga de trânsito,
faltou poesia

Mãe abandona recém nascido
e negro, nordestino, gay apanha,
faltou poesia

Pai abusa de filho
e atirador mata mais de trinta,
faltou poesia

Criança morre em assalto
e idoso é atingido por bala perdida,
faltou poesia

Perdoe esse poema triste
é que hoje faltou poesia.

Wilian Jañez

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Felicidade

As coisas não nasceram para dar certo, somos nós é que fazemos as coisas acontecerem, ou não.
Acredito que a gente tem que ter um foco a seguir, traçar metas, viver por elas. Ou morrer tentando. Jamais queimar etapas e saber reconhecer quando é a sua hora.

O Acaso é uma grande armadilha e destrói os sonhos fracos de pessoas que se acham fortes.
Não passar do tempo e nem chegar antes. Preparar o corpo, o espírito, estudar o tempo o espaço. Não ser escravo de nenhum dos dois.
Observar as coisas que interferem no seu dia e na sua noite. E saber entender que há aqueles sem sol e sem estrelas e que a vida não deve parar só por isso..
Ser gentil com as pessoas e consigo mesmo. E gentileza não tem nada a ver com fraqueza, pois, assim como um bom espadachim, é preciso ter elegância para ferir seus adversários.
O que adintanta uma boca grande e um coração pequeno? Nunca diga que faz, se não o faz.

Ame o teu ofício como uma religião, respeite suas convicções e as pratique de verdade, mesmo quando não tiver ninguém olhando. Milagres acontecem quando a gente vai à luta.
Pratique esportes como arremesso de olhar, beijo na boca, poema no ouvido dos outros, andar de mãos dadas com a pessoa amada, respirar o espaço alheio, abraçar sonhos impossíveis e elogios à distância. E em hipótese alguma, tente chegar em primeiro. Chegar junto é melhor, até porque, o universo não distribui medalhas nem troféus.
Respeite as crianças, todas, inclusive aquela esquecida na sua memória. Sem crianças não há razão nenhuma para se acreditar num mundo melhor.
As crianças não são o futuro, elas são o presente, e se ainda não aprendemos com isso, somos nós, os adultos, é que tiramos zero na escola.
Ser feliz não quer dizer que não devemos estar revoltados com as coisas injustas que estão ao nosso redor, muito pelo contrário, ter uma causa verdadeira é uma alegria que poucos podem ter.

Por isso, sorrir enquanto luta, é uma forma de confundir os inimigos. Principalmente os que habitam nossos corações. E jamais se sujeite a ser carcereiro do sorriso alheio.
Não deixe que outras pessoas digam o que você deve ter, ou usar. Ter coisas é tão importante como não tê-las, mas é você quem deve decidir. Ter cartão de crédito é bom, porém, ter crédito nele tem um preço.

Se possível, aprecie as coisas simples da vida, vai que no futuro... Adeus pertences.

Esteja sempre disposto ao aprendizado, e não se esqueça que, quem já sabe tudo é porque não aprendeu nada.
As ruas são excelentes professoras de filosofia, pratique andar sobre elas.
Procure desvendar as máscaras do dia a dia, pois o segredo está no minúsculo - assim como um belo espetáculo do crepúsculo-, no pequeno gesto das formiguinhas esconde a grandeza a ser seguida pela humanidade.
Tenha amigos. Se não tem, seja. Eles virão.

Felicidade não se ensina, é uma magia, e o segredo está na disciplina de uma vida sem truques e sem fogos de artifícios.
E não acreditem em poetas. São pessoas tristes que vendem alegria.

Sérgio Vaz

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Mundo grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 16 de agosto de 2011

José Américo de Almeida - Citações

Há muitas formas de dizer a verdade.
Talvez a mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira.

Se escapar alguma exaltação sentimental, é a tragédia da própria realidade.
A paixão só é romântica quando é falsa.

O naturalismo foi uma bisbilhotice de trapeiros.
Ver bem não é ver tudo: é ver o que os outros não vêem.

A alma semibárbara só é alma pela violência dos instintos.
Interpretá-la com uma sobriedade artificial seria tirar-lhe a alma.

Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto:
é não ter o que comer na terra de Canaã.

É um livro triste que procura a alegria.
A tristeza do povo brasileiro é uma licença poética ...

Os grandes abalos morais são como as bexigas:
se não matam, imunizam. Mas deixam a marca ostensiva.

O regionalismo é o pé-do-fogo da literatura... Mas a dor é universal,
porque é uma expressão de humanidade.
E nossa ficção incipiente não pode competir com os temas
cultivados por uma inteligência mais requintada:
só interessará por suas revelações, pela originalidade de seus aspectos despercebidos.

O amor aqui é um tudo-nada de concessão lírica ao clima e à raça.
É um problema de moralidade com o preconceito da vingança privada.

Um romance brasileiro sem paisagem seria como Eva expulsa do paraíso.
O ponto é suprimir os lugares-comuns da natureza.

A língua nacional tem rr e ss finais... Deve ser utilizada sem os plebeísmos
que lhe afeiam a formação. Brasileirismo não é corruptela nem solecismo.
A plebe fala errado; mas escrever é disciplinar e construir ...

Valem as reticências e as intenções.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Festa de luz

Nela existe os cabelos
que por ter a cor de um raio de sol
deixa pelo caminho que passa
um rastro de luz
Tem os olhos vivos e claros
que refletem o brilho
dos cabelos que quando soltos
se espalham pelos ombros
e repousam nas costas
Como se não fosse o bastante
ela também tem o sorriso largo e forte
que, assim como os cabelos de raio de sol
e os olhos vivos, possui sua própria luz

Quando ela, de cabelos soltos
e olhos abertos, arma seu sorriso para mim
é como presenciar uma festa de luz
Não dá para entender como
uma criatura que não é estrela
e não mora no céu
pode brilhar tanto em meu dia

E quando distante de toda luz
que ela mostra, fico fascinado
e ansioso desejando que logo
possa vê-la brilhar mais uma vez.

Wilian Jañez

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Milho aos pombos

Enquanto esses comandantes loucos ficam por aí
queimando pestanas organizando suas batalhas
Os guerrilheiros nas alcovas preparando na surdina suas mortalhas
A cada conflito mais escombros

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça
dando milho aos pombos

Entra ano, sai ano, cada vez fica mais difícil
o pão, o arroz, o feijão, o aluguel
Uma nova corrida do ouro
o homem comprando da sociedade o seu papel
Quando mais alto o cargo maior o rombo

Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça
dando milho aos pombos

Eu dando milho aos pombos no frio desse chão
Eu sei tanto quanto eles se bater asas mais alto
voam como gavião
Tiro ao homem tiro ao pombo
Quanto mais alto voam maior o tombo

Eu já nem sei o que mata mais
Se o trânsito, a fome ou a guerra
Se chega alguém querendo consertar
vem logo a ordem de cima
Pega esse idiota e enterra
Todo mundo querendo descobrir seu ovo de Colombo

Zé Geraldo

Vem sentar-te comigo, Lídia

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento de mais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim – à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Consolo na praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecilia Meireles


segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Grandes são os deserto

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,
Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.
Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.

Fernando Pessoa