quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Não Há Amor Suficiente

Não há amor
(Não, não o suficiente)
Vivemos sem auxílio,
Morremos sozinhos.

O recurso à comiseração
Ressoa no vazio,
Os nossos corpos estão estropiados
Mas a carne continua ávida.

Desaparecidas as promessas
De um corpo adolescente,
Entramos na velhice
Onde nada nos espera

Resta a memória vã
Dos dias desaparecidos,
Um sobressalto de aversão
E o desespero despido.

Michel Houellebecq, em "A Possibilidade de uma Ilha"

N


E agora, o que eu vou fazer?
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus?
E as lágrimas não secaram com o sol que fez?

E agora como posso te esquecer?
Se o teu cheiro ainda está no travesseiro?
E o teu cabelo está enrolado no meu peito

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo

E agora, como eu passo sem te ver?
Se o seu nome está gravado no
Meu braço como um selo?
Nossos nomes que tem o "N"
Como um elo

E agora como posso te perder?
Se o teu corpo ainda guarda o
Meu prazer?
E o meu corpo está moldado com o teu?

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo

Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar
De novo
De novo...de novo...de novo...

Nando Reis



domingo, 2 de dezembro de 2012

Fitzgerald, F Scott

“…Algumas pessoas nasceram para sentar na beira de um rio,
Algumas recebem raios,
Algumas nasceram para a musica,
Alguns são artistas,
Alguns quebram recordes,
Alguns fabricam botões,
Alguns citam Shakespeare,
Algumas nasceram para ser mães,
E outras dançam..”


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Soneto do só




(Parábola de Malte Laurids Brigge)

Depois foi só. O amor era mais nada
Sentiu-se pobre e triste como Jó
Um cão veio lamber-lhe a mão na estrada
Espantado, parou. Depois foi só.

Depois veio a poesia ensimesmada
Em espelhos. Sofreu de fazer dó
Viu a face do Cristo ensangüentada
Da sua, imagem - e orou. Depois foi só.

Depois veio o verão e veio o medo
Desceu de seu castelo até o rochedo
Sobre a noite e do mar lhe veio a voz

A anunciar os anjos sanguinários...
Depois cerrou os olhos solitários
E só então foi totalmente a sós.

Vinícius de Moraes

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Paradeiro

Haverá paradeiro para o nosso desejo
Dentro ou fora de um vício
Uns preferem dinheiro
Outros querem um passeio perto do precipício

Haverá paraíso
Sem perder o juízo e sem morrer
Haverá pára-raio
Para o nosso desmaio
Num momento preciso

Uns vão de pára-quedas
Outros juntam moedas antes do prejuízo
Num momento propício
Haverá paradeiro para isso?

Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de nós?
Haverá paraíso

Arnaldo Antunes

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

Amor

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvares de Azevedo

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Passo a passo


Não percebe que meus olhos
seguem o passo que você passa
quando passa?

Que meu olfato ignora qualquer odor
por melhor ou pior que seja
quando seu perfume passa?

E que quando seu corpo passa,
passo a passo, tudo que sou com você vai
apenas meu corpo fica.

Wilian Jañez

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Felicidade

Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz
Sentirá o ar sem se mexer
Sem desejar como antes sempre quis

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar

Lembrará os dias que você deixou passar sem ver a luz
Se chorar, chorar é vão porque os dias vão pra nunca mais

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e depois dançar
Na chuva quando a chuva vem

Melhor viver, meu bem
Pois há um lugar em que o sol brilha pra você
Chorar, sorrir também e dançar
Dançar na chuva quando a chuva vem

Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nessa hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Marcelo Jeneci


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Naquela mesa

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã
Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída, não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim
Naquela mesa ta faltando ele
E a saudade dele ta doendo em mim.

Escrito por Sérgio Bittencourt para seu pai Jacob do Bandolim

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Sorrir



Sorrir, no momento que tudo for dor
          quando nada mais constar
          na hora que pensar em desistir
          e se em nada mais acreditar, sorrir

Sorrir, no momento que tudo for cansaço
          quando não existir razão
          na hora que não tiver motivos
          e se o desespero se mostrar, sorrir

Sorrir, no momento que tudo for pequeno
          quando ninguém mais estiver
          na hora que sentir o corpo cair
          e se a loucura for presente, sorrir

Sorrir, no final de todos os dias
          quando pensar na vida que se fez
          na hora que sentir o orgulho por tanto sorrir
          e se a emoção for presente, chorar.

Wilian Jañez

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Tu e Eu Meu Amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Manuel da Fonseca, em "Poemas para Adriano"

terça-feira, 12 de junho de 2012

Não me entendo

Não entendo.
Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender.
Entender é sempre limitado.
Mas não entender pode não ter fronteiras.
Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
Não entender, do modo como falo, é um dom.
Não entender, mas não como um simples estado de espírito.
O bom é ser inteligente e não entender.
É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

Clarice Lispector

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O capital como único foco

  Antigamente antes do capital ganhar a importância que tem hoje era comum a pessoa ter mais de uma ocupação e durante sua vida ter feito diversas tarefas profissionalmente, é comum encontrarmos artistas antigos que foram escritores, escultores, pintores, filósofos e etc. Isso se dava pelo fato do foco ser a necessidade de ter uma ocupação e por não ser o dinheiro algo tão necessário e imprescindível como é hoje essas pessoas tinham a liberdade de junto a uma ocupação buscar algo que ao mesmo tempo lhe cause prazer, sendo assim, o individuo  trabalhava em um livro, após se dedicava a uma pintura, em seguida uma outra tarefa, fazendo sempre o que desejava para o momento.

  No mundo moderno, mas do que nunca, a sociedade exige que tenhamos alguma ocupação, pois caso contrário você é um acomodado, um vagabundo, porem o foco esta totalmente em ter dinheiro, se hoje nos exigem que tenhamos uma ocupação é para que com isso ganhemos dinheiro. Tendo o dinheiro como o foco e algo de extrema necessidade, as pessoas passam a fazer a mesma coisa por toda uma vida, tendo ou não prazer no que fazem. Deixar uma profissão que lhe proporciona uma quantia satisfatória de capital para se arriscar a fazer uma outra coisa que lhe daria prazer, porem pode não lhe dar o mesmo ganho financeiro é algo extremamente arriscado, sendo assim, para manter a segurança e a estabilidade financeira, nos mantemos da forma que estamos abrindo mão da satisfação pessoal, porem garantindo um bom futuro e dessa forma seguimos sempre desejando mais capital para consumir coisas que nos tragam satisfação e felicidade sem notar que nessa busca estamos correndo para o lado errado.

Wilian Jañez

sexta-feira, 23 de março de 2012

Chico Anysio

"Não sinto medo da morte... sinto apenas pena..."
 Chico Anysio


  Essa frase é demais... Não é sempre que paramos para pensar, mas quando nos deparamos com uma frase dessas nos vemos forçados a parar, se torna inevitável a reflexão.

  Desde novos aprendemos que a morte é inevitável, ela pode chegar a qualquer momento, sendo assim não há razão para teme-lá, podemos sim apenas sentir um grande penar por aquilo chegar ao fim. É como quando comemos algo que gostamos muito, não sentimos medo daquilo acabar, mas sentimos sim um penar por saber que uma hora chegará ao fim, aceitamos o fato inevitável, porém com uma sensação de que aquilo poderia acontecer de outra forma.

Wilian Jañez

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Alfred de Musset

  Todos os homens são mentirosos, inconstantes, falsos, blaso-nadores, hipócritas, orgulhosos ou covardes, desprezíveis e sensuais; todas as mulheres são pérfidas, artificiais, vaidosas, curiosas e depra­vadas; o mundo nada mais é que esgoto sem fundo em que as mais informes focas se arrastam e chafurdam em montanhas de lama; há, porém, nesse mundo uma coisa santa e sublime, a união de dois desses seres tão imperfeitos e horrorosos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A ingaia ciência

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Trecho do Filme: Bicho de 7 Cabeças

É preciso fingir!
Quem é que não finge nesse mundo? Quem?
é preciso dizer que não tem desgosto.
é preciso dizer que não esta com fome.
é preciso dizer que não esta com dor de dente.
é preciso dizer que não esta com medo.
se não, não dá.
nenhum um médico jamais me disse
que a fome e a pobreza pode levar ao desturbio mental
mas quem não come e fica nervoso
quem não come e vê seus parentes sem comer
pode chegar a loucura.
um desgosto pode levar a loucura.
uma morte na família
o abandono do grande amor.

Agente até precisa fingir que é louco sendo louco...
fingir que é poeta mesmo sendo poeta...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Promessas de Ano Novo

Prometo
beber menos
me alimentar melhor
ir ao médico
acordar mais cedo
viajar mais
visitar os amigos
deixar de fumar
ler mais
assistir menos tv
trabalhar mais
juntar dinheiro
fazer as pazes
praticar esportes
comprar uma casa
trocar de carro
ter apenas uma mulher
casar com ela
não trai-la
visitar um orfanato
ver meus avós
deixar o vizinho em paz
pintar a casa
me livrar dos pombos
passear com o cachorro
dormir mais cedo
encontrar Deus
conversar com ele
podar a árvore
lavar a louça
ser mais atento

e para o ano seguinte ao ano que vem
prometo não prometer em vão.