terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A ingaia ciência

A madureza, essa terrível prenda
que alguém nos dá, raptando-nos, com ela,
todo sabor gratuito de oferenda
sob a glacialidade de uma estela,

a madureza vê, posto que a venda
interrompa a surpresa da janela,
o círculo vazio, onde se estenda,
e que o mundo converte numa cela.

A madureza sabe o preço exato
dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
e nada pode contra sua ciência

e nem contra si mesma. O agudo olfato,
o agudo olhar, a mão, livre de encantos,
se destroem no sonho da existência.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Trecho do Filme: Bicho de 7 Cabeças

É preciso fingir!
Quem é que não finge nesse mundo? Quem?
é preciso dizer que não tem desgosto.
é preciso dizer que não esta com fome.
é preciso dizer que não esta com dor de dente.
é preciso dizer que não esta com medo.
se não, não dá.
nenhum um médico jamais me disse
que a fome e a pobreza pode levar ao desturbio mental
mas quem não come e fica nervoso
quem não come e vê seus parentes sem comer
pode chegar a loucura.
um desgosto pode levar a loucura.
uma morte na família
o abandono do grande amor.

Agente até precisa fingir que é louco sendo louco...
fingir que é poeta mesmo sendo poeta...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Promessas de Ano Novo

Prometo
beber menos
me alimentar melhor
ir ao médico
acordar mais cedo
viajar mais
visitar os amigos
deixar de fumar
ler mais
assistir menos tv
trabalhar mais
juntar dinheiro
fazer as pazes
praticar esportes
comprar uma casa
trocar de carro
ter apenas uma mulher
casar com ela
não trai-la
visitar um orfanato
ver meus avós
deixar o vizinho em paz
pintar a casa
me livrar dos pombos
passear com o cachorro
dormir mais cedo
encontrar Deus
conversar com ele
podar a árvore
lavar a louça
ser mais atento

e para o ano seguinte ao ano que vem
prometo não prometer em vão.