segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A miséria do mundo

A miséria do mundo é ser só
não digo estar só,
por vezes é necessário estar só,
porem ser só é a escuridão
A solidão completa é demais para qualquer um,
seja você, eu ou um cão
Ninguém deseja ser sozinho
Desejamos sermos aceitos,
queridos, amados, desejados
até mesmo, quem sabe, odiados,
mas jamais desejamos o completo esquecimento
Mesmo na morte somos lembrados
seja a lembrança mínima de uma lápide fria ou de um obituário,
mas nos resta alguma lembrança
Sempre existirá o momento
que desejaremos a companhia de alguém
mesmo que sem assunto,
mas haverá uma presença.
Desejamos um sorriso, um olhar,
um aceno vindo da casa da frente,
um abanar de rabo,
uma lambida na mão,
qualquer pequeno acontecimento
que nos afirme e prove que não somos sós,
mas jamais desejamos a miserável morte em vida
que é o fato de sermos sós.

Wilian Jãnez

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

John Donne

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Você é uma cidade?

Quem gosta de viajar talvez já tenha pensado nisso: as pessoas são como cidades. Quando nos envolvemos com elas, quando passamos a conhecê-las intimamente, é o equivalente a caminhar sem mapa por ruas nas quais nunca pisamos, por bairros que não sabíamos existir. O prazer desse passeio inaugural é irreproduzível. Você poderá voltar às mesmas ruas muitas vezes, deve fazê-lo na verdade, mas nenhum outro momento terá a surpresa daqueles instantes iniciais, quando os nossos olhos são puros e o nosso coração é virgem outra vez. Pode-se amar uma cidade a vida inteira, mas é impossível descobri-la duas vezes.

A imagem das pessoas como cidades me ocorreu na semana passada, enquanto conversava com uma amiga que está redescobrindo o mundo. Falávamos de novos relacionamentos, sobre a luz fresca que eles despejam sobre a nossa vida, de como nos despertam a totalidade dos sentidos. Então surgiu a ideia de que as pessoas são como cidades ensolaradas e coloridas – às vezes sombrias e chuvosas - que vão sendo exploradas à medida que as conhecemos. Ou à medida que consintam em ser devassadas.
Se eu olhar para o meu passado – e você para o seu – descobriremos ter passado por diferentes geografias humanas.

Havia uma moça, aos 19 anos, que era uma tempestade em movimento. Enquanto estivemos juntos, eu descobria, a cada passo, ruas sombrias que me assustavam, placas com direções contraditórias, terrenos abandonados e hostis. Na cidade que era ela, quanto mais eu andava mais perdido me sentia.

Consegui espantar o medo do que via em troca do prazer de estar ali, mas isso não foi suficiente. Antes que eu tivesse tempo de fazer um mapa, de ensaiar a mais elementar das compreensões, ela se foi. Só fui revê-la anos depois, ainda impenetrável, ainda perturbadora.

Com o passar do tempo, eu, que me julgava um amante da sombra, descobri os prazeres da luz – e o fascínio daquilo que é, ao mesmo tempo, transparente e intraduzível.

Uma mulher de imensa delicadeza entrou na minha vida e a encheu de sol. Mais que uma cidade, ela me pareceu um país inteiro. Andei tanto por suas ruas, me perdi tanto descobrindo, que não notei que havia ficado sozinho. Tive de deixar a cidade que eu amava e aquilo foi como um exílio. Passaram-se anos antes que eu encontrasse outra pessoa tão marcante, outra cidade tão nova e diferente da minha, outro lugar de onde não queria me afastar. Explorei essa nova cidade com a urgência de quem nunca vira nada semelhante, arfando e rindo, tomado pela alegria e o colorido do que ia percebendo. Nunca me senti tão acolhido, nunca fui tão feliz. Mais que uma cidade, havia uma festa ao meu redor. Quando, ao final, as luzes se apagaram, eu havia me tornado outro homem – suavizado pela experiência tranquila de amor, capaz de entender, finalmente, o que me cabe e o que me completa.

Como sabem os amantes das viagens, uma cidade leva a outra. Explorar é explorar-se. Conhecer é conhecer-se. Cada experiência nos prepara para a outra. Cada mudança antecipa a outra que está por vir. Assim, aos trancos, cheguei à cidade onde me encontro. Não a havia antecipado. Quando a vi, me pareceu tão linda que não me cabia, mas fui ficando, como um usurpador ou um clandestino. Tornou-se o meu lugar. Às vezes descubro uma esquina nova, de vez em quando me perco na beira do Rio, fico. Gosto do que conheço, sinto que há muito mais a descobrir. Percebo, meio encantado, que esta cidade cresce à frente dos meus passos, ao meu redor, comigo. Há nela algo de inesgotável que reage a mim. É a minha cidade. Cuido dela, que me faz feliz.

Minha amiga me faz notar, porém, que nem todas as pessoas são cidades. Algumas serão vastos continentes gelados. Outras, apenas becos sem saída.

Posto diante dessa imagem poderosa, me pergunto quem sou eu. Um quarteirão deserto e árido? Uma praça com bancos coloridos? Uma cidadezinha preguiçosa plantada num vale? Uma metrópole à beira mar, varrida pelo vento e pela sirene dos navios? Eu não sei. Não sabemos, na verdade. E nem nos cabe dizer. Na verdade, temos de ser descobertos, nomeados e mapeados. É pelo olhar amoroso do outro que nos revelamos. É no olhar do outro que nos re-conhecemos. Como uma cidade. Um país. Um mundo que o outro queira habitar – e transformar em sua casa.

Ivan Martins

Charles Baudelaire

É preciso estar sempre embriagado.
Eis aí tudo: é a única questão.
Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: 
'É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira'.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Cuidado com os Poetas

Desconfie dos poetas e das poetizas,
Essas pessoas brincam com as palavras,
Te envolvem, te seduzem,
E atacam sorrateiramente, sem que perceba.

É quase impossível fugir de suas rimas,
Eles são ousados,
Tem quem escreva versos em placas e amarre-as em postes.
Não se iluda, basta uma espiada e, logo...
estará com um livro da Clarisse Lispector nos braços!

Cuidado com os poetas,
Essas pessoas são subversivas,
Propagam a indignação e a desordem,
Se acham no direito de mudar o mundo!

Cuidado!
Eles estão por toda a parte,
São bruxos e bruxas!
Seu ritual mais sagrado é o sarau,

Nunca fique tranquilo!
Pois quando estiver sossegado tomando sua cerveja gelada no bar...
Chegam eles, de mansinho e atacam em grupo!

Uma superdosagem de palavras ritmadas atingirão seu espírito...
Modificando-o pra sempre!

Qualquer pedaço de papel é uma arma nas mãos de um poeta!

Se um deles escrever algo num guardanapo do boteco,
Pelo amor de Deus, eu insisto, não leia!!!
Se ele insistir em declamar, abafe os ouvidos,
As consequências podem ser cruéis...
Já vi desde paixões repentinas até uma louca vontade de fazer revolução!

Rodrigo Moreira Campos
Homenagem ao Sarau do Binho