terça-feira, 22 de outubro de 2013

Fruta no pé

Em pé e parado no chão,
como tivesse gerado minhas próprias raízes,
observo um pomo maduro no galho
Habitante da parte mais alta da árvore
é inatingível para mim e os demais bichos terrestres
e mesmo na distância
noto a delicadeza que possui tal fruta
ao estar ligada ao pé por um fio de galho
mais delicado que ela própria
Repouso meu corpo inquieto
na base do tronco da árvore
onde a fruta se torna
invisível para meus olhos
porem viva em meu pensamento,
e sem me perturbar com a grama
que coça minha pele
fecho os olhos e começo a imaginar
o prazer de ter a fruta nas mãos,
toca-la com volúpia sentindo sua casca
junto da palma da minha mão,
e estando nessa menor distância
poder notar calmo e atencioso
cada detalhe dessa fruta
Com os olhos fechados
aproxima-la do meu rosto
e sentir o cheiro que ela tem
Após um tempo leva-la até a boca
lhe cravar os dentes na carne,
sentir seu gosto de fruta dominar meu paladar
como se não houvesse no mundo
gosto tão bom quanto esse
O suco escorre pelo canto da minha boca
e se perde na pele desabando na direção do queixo
Depois de provar cada pedaço
espalho meu corpo no chão
e mais calmo adormeço
tendo meu corpo, antes vazio,
preenchido pelas sensações
que só essa fruta
inatingível no alto da árvore
é capaz de me dar.

Wilian Jañez

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Dia chuvoso

As gotas caem cada vez maiores
vão ocupando o espaço do vidro
formando uma constelação de estrelas aquosas
o ambiente, como fosse um músculo no frio,
se contrai
se fecha
se abafa
se aquece
se torna quase um útero
e eu o feto
infecto
impuro
contaminado pelas coisas do mundo
desejo o parto
a luz do dia
a vida externa
mas com a quantidade de estrelas aquosas que caem
é melhor ser feto.

Wilian Jañez

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Da solidão


Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu "O corvo": o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua saudade a pungente litania do "nunca mais".

Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade - que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? - cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.

Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n'alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n'alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?

Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza... Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?

Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

Vinícius de Moraes

Quereres

Há quem queira um filho
uma casa
um cão
uma bebida
uma médico
um fígado
                Há quem queira trepar
                gozar
                reviver
                amar
                chorar
                morrer
                           Há quem queria um cu
                           um emprego
                           uma flor
                           uma briga
                           uma lágrima
                           um poema
                                            Eu só quero um beijo seu.

Wilian Jañez

Olhar

Toda saudade cabe em um olhar
os olhos choram quando se encontram
não são mais olhos de alegria
olhos de quero logo estar junto
são olhos de nunca mais
ao mesmo tempo
olhos de quero mais.

Wilian Jañez

A Vida

  Nunca sabemos o que a vida nos reserva, por vezes temos alguma desconfiança e podemos até esboçar como será o futuro, porém nunca teremos certeza.

  De um salto podemos alçar vôo, mas também podemos nos arrebentar no chão. Seria chata a vida se ela fosse apenas certezas. Todas as vezes que me arrebentei não morri, fiquei mais forte e nas vezes seguintes estava fortalecido para voar cada vez mais longe e mais alto, por esse motivo não me acovardo e jamais deixo de saltar. Não que eu não goste de estar firme sobre a da pedra, as vezes fico por um tempo pois é seguro, mas nada mais vivo que a sensação de estar incerto no ar.

Wilian Jañez

sábado, 5 de outubro de 2013

Amigo

Amigo,
É aquele que não declara a sua beleza,
apenas repousa enquanto ah admira.
É aquele que no lugar de combater sua tristeza,
apenas senta e alimenta a sua embriagueis.

É aquele que quando você esta mais cansado
lhe atormenta o repouso a todo custo.
É aquele que resgata do passado
acontecimentos que você desejava nunca mais recordar.

É aquele que sempre lhe ajuda a fazer coisa errada
pela ultima vez, penúltima vez, antepenúltima vez, ...
É aquele que lhe trata como um filho,
lhe dando todo tipo de auxilio, quando necessário

É aquele que não exige sua atenção,
apenas se mantém ao seu lado.
É aquele que não luta contra o seu final,
apenas te mostra o caminho para o recomeço.

Wilian Jañez
06/04/2007

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Milágrimas

Em caso de dor, ponha gelo 
mude o corte de cabelo 
mude como modelo 
vá ao cinema dê um sorriso 
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo

se amargo foi já ter sido 
troque já esse vestido 
troque o padrão do tecido 
saia do sério deixe os critérios 
siga todos os sentidos 
faça fazer sentido 
a cada mil lágrimas sai um milagre

caso de tristeza vire a mesa 
coma só a sobremesa coma somente a cereja 
jogue para cima faça cena 
cante as rimas de um poema 
sofra penas viva apenas 
sendo só fissura ou loucura 
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura 
faça uma novena reze um terço 
caia fora do contexto invente seu endereço 
a cada mil lágrimas sai um milagre

mas se apesar de banal 
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal 
sinta o gosto do sal 
gota a gota, uma a uma 
duas três dez cem mil lágrimas 
sinta o milagre 
a cada mil lágrimas sai um milagre

Itamar Assumpção

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Amor com fim

Sim, o amor acabou,
mas obrigado por ter começado.
Fui feliz porque te amei
honrado por ter estado ao seu lado,
mas ainda que tua boca diga que me ama
o silêncio dos teus olhos aflige meu coração.

Houve um tempo que sorríamos muito
em que nossas mãos caminhavam unidas
como uma oração ao Deus da felicidade
e hoje, ainda que haja lágrimas
essa lembrança alivia a dor na despedida.

Peço perdão
se por acaso não cumpri a promessa da eternidade
porém fui eterno todas as vezes que,
entre um sussurro e outro,
ajoelhei diante do milagre dos teu beijos.
E crucificado
na cruz dos dias que não davam certo
me sentia um deus
todas as noites
que ressuscitava em seu braços
o amor nosso de cada dia.

Não sei se posso ser seu amigo
depois ter sido seu amante,
mas depois de ter sido teu amante,
que graça tem ser seu amigo?

Não quero de volta as estrelas
que te dei
em troca de
todas as vezes que você me levou ao céu.
O amor é um presente
que poucos podem ter, ou dar.
Amar é um ato de coragem
já desamar requer humildade.

Quando se dá o último abraço
é porque já faltava braços há muito tempo.

Não quero entender o amor
de minha parte, só queria dizer obrigado.

Sérgio Vaz


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ferreira Gullar



"A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela é desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz."

Corpo a corpo com a linguagem (artigo publicado em 1999)

SABOTAGE (O INVASOR)

MAURO
ERA UM NEGRO DE ASAS.
UM PÁSSARO
COM OS PÉS NO CHÃO.
SOM DE ÉBANO
COM PELE DE COURO,
O MOURO FEZ NINHO NO CANÃO.
O PASSADO,
QUE O FUTURO QUERIA
ESCRITO EM CARVÃO,
DEIXOU DE SER PÓ
PRA SER PÃO,
AO SE VICIAR EM POESIA.
O POETA
DE PLUMAS NEGRAS
E VOZ DE PEDRA
CRAVOU SEU CANTO
PRETO E BRANCO
NAS VIDRAÇAS
DO MUNDO COLORIDO.
FILHO BANTO
EM CARBE E CARCAÇA
SERVIU A TAÇA
COM VIDRO MOÍDO
AOS TRAIDORES DA RAÇA.
NAVEGANTE
DE MARES INSOLENTES
SUA BÚSSOLA
APONTAVA SEMPRE PARA A PERIFERIA.
A RIMA ERA O RUMO
O REMO DA SINA.
NO AR,
COMO FUMAÇA DE FUMO
E VERMELHA RETINA,
ERA FRIO
ERA QUENTE,
MAS NUNCA BANHO-MARIA.
UM DIA
NUM VÔO CURTO
DEPOIS DE UMA LONGA METRAGEM
UM DISPARO SEM ROSTO
UMA BALA SEM GOSTO
CALOU O PERSONAGEM.
DIANTE DISSO
E SEM NOS ESPERAR
DESFEZ O COMPROMISSO
SEGUIU DE VIAGEM
E FOI CANTAR EM OUTRO LUGAR,
NUM BOM LUGAR.

SÉRGIO VAZ